Vícios antigos hábitos modernos

Rui Catalão

Um almanaque cénico de RUI CATALÃO servido em pequenas doses
Onde os vícios novos se curam com remédios velhos

 

Em Vícios antigos hábitos modernos procuro articular dois géneros performativos: o stand-up e as conferências de especialistas.
Servindo-me de alguns temas recorrentes em jornais e redes sociais, tentarei estabelecer o cenário pós-pandémico de “regresso à vida”.
A retoma económica é urgente, mas as nossas competências sociais também estão “em baixo de forma”.
O nosso estado psicológico é uma incógnita: estaremos a enlouquecer de vez com a falta de hábitos sociais, ou a libertar os nossos instintos misantropos?


Vícios antigos hábitos modernos é um conjunto de pequenas narrativas e anedotas. Hábitos, outrora condenados como vícios, tornam-se agora vitais para a recuperação das nossas aptidões sociais e passam a ser receitados por um terapeuta, só muito aparentemente profissional da medicina, para o tratamento de doenças e sintomas patológicos provocados pelo isolamento.

Organizado como um almanaque, Vícios antigos hábitos modernos os espectadores são convidados a reconhecerem em si, ou em pessoas que lhes são próximas, sintomas mórbidos ou depressivos – com a figura do terapeuta, a proporcionar pistas para o diagnóstico e o seu tratamento.

Trata-se de uma paródia aos meses de confinamento, em contexto de pandemia, e também à forma como as redes sociais – com os seus especialistas instantâneos - têm vindo a substituir a vida social (que se faz também com a partilha de espaços, com o contacto, o frente a frente).
Isolados na sua bolha de impunidade, os utentes das redes sociais ficam libertos para comportamentos irresponsáveis, ao mesmo tempo que se submetem a uma constante vigilância da linguagem.
No actual contexto polarizado em que se vive, uns perdem todos os filtros da cordialidade e da convivência, e tornam-se intensionalmente ofensivos e manipuladores, enquanto outros perdem o juízo a racionalizarem as regras da correcção e do que é aceitável (no que representa uma forma de manipular o próprio discurso).
Em ambos os casos, fechamo-nos em bolhas protectoras e só conseguimos comunicar com quem pensa como nós. Os outros, os que pensam e agem de maneira diferente, tornam-se apenas a causa da nossa rejeição, que nos permite reforçar as convicções a que nos aferrámos.


Será apresentado em pequenos episódios cénicos de 20 min. Foi concebido para ser posteriormente difundido nas redes sociais, nomeadamente as plataformas de vídeos caseiros. Não como forma de promoção, mas como antídoto ao veneno em que se tornaram os formatos de “uso amigável”.  

 

Patrícia Almeida

Patrícia Almeida