Geografia do Amor

Diego Bragà

"Pensa num futuro bonito pela frente"

Em 2011, o homem mais amado e temido da minha infância, o meu tio Ricardo (minha
Bruxinha e conhecedor exímio da geografia mundial), morreu de AIDS, deixando
verbalmente toda a sua herança pra mim. A herança é constituída por uma caixa de plástico
que ele guardou por 3 décadas no seu armário. Nela encontram-se 454 cartões-postais de
cidades trocados com cerca de 160 pessoas, contemplando 3 décadas (70, 80 e 90) e 14
países, entre eles Portugal (na caixa encontram-se também documentos de identidade,
exames de saúde, cartas, desenhos, fotografias pessoais e folhas de diários).
Ele conheceu grande parte desses “amantes” no Posto 9, na Praia de Ipanema (lugar utópico
e habitat oficial dos “sereios” no Brasil) e no esplendor dos guetos livres em plena ditadura
militar.
Em 2016 abri a caixa e vi aquele tesouro com olhos molhados. Ainda vejo. Há uma chuva de
inverno caindo lá fora...

Para o Ricardo a “geografia mundial” sempre foi sobre entrar num espaço de fascinação
e mistério, pois a maioria daqueles lugares que me descreveu ele nunca chegou a ir, exceto
ao Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia.
Constantemente, através do seu conhecimento teórico, ele forçava a sua imaginação ao
desconhecido. Nas suas “aulas”, durante a minha infância, me parecia que ele buscava
oportunidades para me levar além. Às vezes ele se vestia de bruxa.

 

concepção, texto, música, encenação e performance: Diego Bragà
desenho sonoro, produção musical e performance: Rui Lima & Sérgio Martins
produção musical dos singles: Chico Neves | Estudio304
desenho de luz: Rui Monteiro
pintura para cenário: Martim Dinis
apoio à criação: Bolsa Self Mistake e Fundação GDA

 

Cartão postal recebido por Ricardo, do Peru, em 1976, com poesia de Federico Garcia Lorca

Foto DiegoBagagal

de Bruno Leão

Horace Lundd