Distância de segurança

Joana Magalhães

“A ideia de distância assume sempre a existência de dois pontos. Mesmo quando a distância é nula, esta é-o para dois pontos coincidentes. É formalizada e generalizada pela matemática através do conceito de métrica. Um espaço onde há uma distância ou métrica definida é chamado de espaço métrico.” - Wikipedia
A pandemia veio acelerar uma série de epifenómenos, entre eles a já chamada “primeira catástrofe mundial da era digital” - o desnortear do próximo e do distante (Cachopo,2020). Evidenciou algumas distâncias/assimetrias. Veio criar outras. A prova física de confinamento foi tão ou mais sentida pelo corpo como pela psyche. Ao mesmo tempo que lidámos com a diminuição da profundidade de campo, falhou-nos o horizonte, problema não só de percepção mas de falta de imaginação. A “remediação digital”, a “segurança” e os perigos que comportaram as atividades humanas modernas com a criação de novos monstros - maravilhas da simbiose mas terríficas ameaças da disfunção climática - como os define Anna Tsing1, foram questões que nos rasgaram e que trouxeram o conceito de distância para um ponto paradoxal que evidencia os dois sentidos do entanglement: vida e perigo, aproximação e distância.

Distância de segurança surge do diálogo que me interessou estabelecer entre as distâncias mínimas aconselhadas pela DGS e o encurtar das distâncias entre humanos e animais selvagens que se diz ter estado na origem da crise pandémica. Fixei-me num conceito que ouvi repetidamente nos últimos tempos e que subitamente se tornou parte do léxico comum - o de distância de segurança - para o problematizar e trazer a debate as formas como o ‘outro’ é constituído, questionando as estreitas relações de poder que se estabelecem no espaço [entre], quer [entre] humanos ou não-humanos. Propus-me partir destas duas noções - distância e segurança - para as aplicar aos contextos em que a oscilação entre próximo e distante se tornam factor de sobrevivência e de exercício de poder de um sobre um outro. Contextos que geram os seguintes capítulos estruturadores da perfomance a apresentar: 1. Mapas, 2. Instruções, 3. Sobrevivencialismo, 4. Caça e Domesticação, 5. Colonização, 6. Individuação e 7. Ecologia.

1Tsing, A., Swanson, H., Gan, E. & Bubandt, N. (Eds.). Arts of living in a damaged planet. Minneapolis : University of Minnesota Press, 2017.

 

Criação e Interpretação: Joana Magalhães

Apoio à pesquisa e criação: Maria Inês Marques, Plataforma UMA

Composição sonora: Rodrigo Malvar

Desenho de luz e som: Vasco Ferreira Apoio à criação: Self-Mistake

 

Gil