Ao Fundo

Diana de Sousa

Nova criação 2019/2020


O mito de Penélope dá conta de uma das mais vívidas e inquietantes imagens de feminilidade: a da mulher que espera pelo amor e, enquanto espera, paciente e metodicamente, borda e tece, adiando o mundo. Contudo, à medida que o diálogo com a matriz textual da Odisseia se torna mais claro e mais tenso – e, em particular no que à figura de Penélope diz respeito -, o mito desloca-se, simultaneamente, para um contexto marcado por inquietações mais apensas à contemporaneidade e, em particular, à situação da emigração e da condição da mulher.
Ulisses, o herói aventureiro, emigrou e tarda em regressar a casa; Penélope, a esposa resiliente, ficou para trás e aguarda. Enquanto espera, tece histórias e perguntas. Se Ulisses emigra enquanto Penélope espera e se transforma noutra mulher, que transformações são essas? Que acontece quando se espera por alguém por tempo indeterminado?
Permanecerá Penélope a mulher que durante séculos foi apontada como exemplo de castidade e fidelidade? Quantas Penélopes existem? Não será Ulisses a esperar por ela? Ou será que é Penélope que espera por si própria?
Perguntas feitas, neste projecto, o mito de Penélope e Ulisses funcionará como uma narrativa que cristaliza e evoca a situação de muitos casais um pouco por todo o mundo. Penélope espera da mesma forma que andamos todos à espera. À espera de sermos felizes, de sermos amados e desejados; à espera de conseguirmos estabilidade financeira e profissional, à espera de melhores dias. No fim, guardamos o testemunho que nos lembra que o amor não é só exaltação, mas também contradição.

 

Teaser de bela-adormecida de Diana de Sousa

Vasco Mendes

Foto Bela Adormecida de Diana de Sousa

Bruno Simão