PEEP SHOW

Peep show

Peep show é um projecto de apresentação de criações de dança e performance que procura estabelecer uma relação de intimidade entre artistas e público.

Peep Show é um acto político em torno da criação e restituição de relações íntimas e de proximidade. É um resgate do desejo de contacto social concretizado por via de uma imersão plena da atenção e da presença.

Peep Show convida o público a participar em encontros num espaço em que o performer se revela de uma forma mais próxima e exposta, criando as condições para a possibilidade de um estar junto mais profundo, activando lugares de intimidade, vulnerabilidade e confrontação.

Num momento em que os corpos são vistos, em grande parte, através de ecrãs de telemóveis e computadores, em que as caras estão tapadas e perdem a individualidade e a expressão, os corpos estão ainda mais separados uns dos outros. As relações tornam-se mais virtuais, mais quebradas e vai-se perdendo a empatia, a atenção e a presença. É preciso contrariar esse caminho de desumanização e proporcionar momentos e acções que nos exponham à intimidade com o outro e connosco.

Este momento de isolamento e de distância entre os corpos que estamos a experienciar, leva-nos a refletir e questionar se esta relação está presente e como podemos recuperá-la. Este projeto encontra-se nesse lugar, num tempo em que a presença física está remetida a um lugar de utopia e/ou passado. O processo que estamos a viver é um reflexo da sociedade, é um espelho do mundo. Agora é o momento para a Arte contribuir para a mudança de paradigma das relações humanas.
 
É essencial continuar e elevar o acto performativo ao acto de resistência, ao acto de amor e colocar o foco na essência da relação – a presença, a verdadeira e absoluta presença.
Peep Show procura novas formas relacionais do público com o acto performativo, transformando o lugar habitual do “público” em lugar “privado”, mais “íntimo”, procurando criar momentos de contacto que se concretizam na esfera privada do contexto artístico.

Este lugar único em que o público se encontra como elemento essencial do acontecimento - sem que, no entanto, se estabeleça dependência entre artistas e públicos - tem como foco a procura de objetos artísticos que contenham a força e potência de uma declaração de amor, sem dependência ou submissão do outro, apenas vivendo o encontro com a intensidade e desejo mútuo mais puro.


Peep Show pretende contribuir para a produção e apresentação de criações onde a presença é tão absoluta e violenta que nos leva à transcendência, como em qualquer relação autêntica. É um projeto que se propõe resgatar as possibilidades das relações profundas. Reformula-se no questionamento, no diluir de fronteiras, na activação do desejo de estar plenamente junto, por via da co-presença consciente e de sentidos ampliados entre o espectador e os objetos artísticos que surgem no encontro performático, no lugar e tempo concreto das relações entre os corpos.
 
 
Nas artes performativas, como na vida, a presença física, activa e de co-presença consciente no ‘ao vivo’ é essencial para se estabelecer uma relação. É urgente permitir a experiência da potência e da qualidade da relação entre corpos, que nas artes performativas vive do efémero, que leva ao inesquecível encontro que se projecta na memória e permanece como existência, em permanente transformação interna.
 
Este é um projeto que investiga a ideia de presença absoluta e intensa, não só por parte do artista que proporciona o encontro, mas também do público e do próprio objeto artístico, que destaca e procura provocar uma presença real e activa no espectador. Assumir a disponibilidade para existir com o outro, para conhecer o outro. Nesta relação de entrega que não parte de assunções, em que se abre espaço para o surgimento da intimidade, no desejo livre de conhecer o outro. 
 

Nesta proposta, o distanciamento social que se vive na nossa sociedade e que foi ampliado nos últimos tempos, é entendido como metáfora da separação que já existe, da superficialidade, do corpo presente e da alma morta, da falta de profundidade na relação, da ausência do toque, da intimidade e ainda - e mais importante - da presença consciente de cada gesto vivida no instante em que ocorre. Recorda-nos a importância do contacto com o outro. Recorda aos corpos que é fundamental não se habituarem a estados de solidão e de distância e que as relações humanas são fundamentais na construção de uma sociedade mais livre e empática.
 
A arte tem em si a potência da transformação, mas, tal como o resto da sociedade, tem de resistir e insistir para manter o seu papel. É na recuperação deste poder que o projecto se sustenta. É fundamental que os dispositivos e gestos artísticos não abdiquem de reivindicar o seu poder relacional, que nos preparem para sermos mudados, despidos, tocados, penetrados, e disponíveis para viver intensamente cada instante.
 
Num tempo em que estamos praticamente condicionados, nas artes como na vida, à relação convencional, importa experimentar formas alternativas de encontro com o “público”. Dar tempo ao pensamento e sentido aos acontecimentos. Este é o momento para dar espaço à importância do processo de concepção e de recepção. O tempo justo para aproximar a Arte do gesto poético, íntimo, atento e consequentemente político. Queremos promover a restituição do direito do acesso do público a trabalhos criados no absoluto desejo de ligação/conexão entre pessoas, fomentando, ao mesmo tempo, a responsabilidade por parte do público de dedicar à obra a sua total atenção. O projecto pretende provocar o desenvolvimento de criações que levem em conta o acto comum de partilhar responsabilidades e tomadas de decisões, de entrar no desconhecido juntos.
 

É tempo de levar mais longe a possibilidade do espectador se interrogar, de sentir, de compreender, de se perder e de se encontrar, de se reconhecer numa possibilidade de visão e transformação do mundo através do acto de participante activo num gesto performativo, onde se podem descobrir as camadas mais profundas de significado.


Organização: ORG.I.A
Curadoria e produção: Tânia M. Guerreiro
Apoio: Câmara Municipal de Lisboa - Fundo de Emergência Social - Cultura
Parceiro Institucional: República Portuguesa – Ministério da Cultura

Foto: Alípio Padilha (“Fire Starter”, apresentação de pesquisa de André Uerba)