CRIAÇÃO DO NADA

No alfabeto japonês existe um caracter – mu - cujo significado é ‘não’ ou ‘sem’. Significa ‘nada’, ‘não ter’, ‘não ser’. Já o caracter chinês wu (que na antiguidade significava dançar), indica a ausência de algo. O sentido de negar, de não fazer, de não ter nada para fazer, estava conotado com o ato de dançar.

 

O projeto CRIAÇÃO DO NADA surge num contexto de impasse social e político em que nos deparamos com a urgência de criar um novo paradigma que reequilibre a atenção e a produção, através da dança e da implicação do corpo.
 
É neste cenário de chantagem do crescimento económico, da vertigem consumista que nos torna reféns de estímulos imediatos e necessidades passageiras, que convocamos artistas, investigadores e profissionais do conhecimento, independentemente da área em que atuam, a colaborarem num projeto que tem como objetivo principal questionar a aceleração e a separação humana.

O projeto ambiciona desenvolver ações provocadoras, com o contributo dos intervenientes. Por ações provocadoras entenda-se que desafiem a “normalidade”; que testem e imaginem outras possibilidades de estar em sociedade de forma mais integralmente ecológica e sensível, por via do recurso ao pensamento crítico e à arte, tendo o corpo e a dança um papel fundamental neste movimento de contágio.


No livro “A Expulsão do Outro”, Byung-Chul Han alerta para o desencantamento da arte causado “pela sua desritualização e a sua interiorização narcísica.”
A renovação do sentido de partilha e de pertença é o desafio radical que fazemos aos participantes: que desliguem os canais que habitualmente ativam para desenvolver projetos e se disponibilizem para um trabalho aberto à mudança e ao risco.
E que, libertos da chantagem de produzir, e de satisfazerem os agentes de que dependem, explorem o que podem ainda fazer, não para alimentarem os circuitos de produção, mas para se reencontrarem com a curiosidade e o interesse pelos outros à sua volta, com a motivação que fez deles artistas, investigadores... Que seja um trabalho transformador na forma como se abre à interpretação e ao debate. E se dirija a um novo público, ainda por formar, acompanhando a hipótese de crença de que um outro modo de viver, alternativo ao capitalismo desenfreado, é possível.

O projeto propõe a redução e a desaceleração, com processos de trabalhos de maior duração, mais completos e profundos, que assinalem o desenvolvimento e o crescimento equilibrado dos artistas, das suas obras e as implicações éticas e concretas que o seu trabalho desencadeia no contexto específico onde se inscreve.

Trata-se de um convite a suspender a vertigem produtiva que alimenta os mercados, ao mesmo tempo que promove lugares de encontro, debate e partilha. Onde a razão prática do ato de fazer seja recuperada
como vontade e não como necessidade.

 

CRIAÇÃO DO NADA – Projecto Performativo

O projeto propõe a suspensão da vertigem produtiva que tem alimentado o mercado cultural tal como existe. Que abandonem os pressupostos em que habitualmente se amparam para desenvolver os seus espetáculos e que, disponíveis para ouvirem o outro, para se relacionarem entre si sem a pressão de terem de criar um novo objeto, recuperem um sentido muito antigo da dança enquanto negação da razão prática do ato de fazer.


O projeto propõe a reunião de criadores, numa lógica transversal às suas especializações e áreas de trabalho,
em encontros consagrados à ritualização da experiência e à importância da memória como elemento
transformador do que virão a fazer no futuro.


No projeto CRIAÇÃO DO NADA estamos interessados em vivenciar a experiência como um ato criativo e do
qual ninguém em particular é o autor. Que congrega uma multiplicidade de discursos, de práticas, de formas
de ser e de estar que são postas a coabitar.

 

 

Projecto Self-Mistake
Produções Independentes/ORG.I.A

Direção artística: Tânia M. Guerreiro

Apoio Conceptual e textos: Rui Catalão

Observadores: Cláudia Galhós, João Meirinhos, Rui Catalão

Colaboradores Residência para a Criação do Nada : Natacha Campos, Mercedes Quijada, Bernardo Chatillon

 

Apoio: DGARTES – Direção-Geral das Artes - República Portuguesa - Cultura e Câmara Municipal de Lisboa – Cultura

 

 

 

HAIKU de Joana Magalhães - foto de Vasco Ferreira.

HAIKU de Joana Magalhães - foto de Vasco Ferreira.