ARTISTAS SELF-UNCENSORED [UnCoding]
SELF-UNCENSORED
Manual de resistência para 2050
MANUAL OF RESISTANCE FOR 2050
conferência-performance-concerto
Ana Borralho & João Galante
Em Manual de resistência para 2050, Ana Borralho & João Galante propõem uma conferência-performance-concerto que transforma o colapso em código performativo, usando a ficção e a ironia como linguagem para imaginar outras formas de resistência e futuro. Entre corpo, palavra e escuridão, Borralho & Galante exploram a falha como espaço de escuta sonora, reinvenção coletiva.
Ana Borralho (n. 1972, Lagos) e João Galante (n. 1968, Luanda) são artistas portugueses com um percurso singular e transdisciplinar que cruza artes visuais, performance, teatro, dança e som. Trabalham em parceria desde 2001, criando obras que se distinguem pela experimentação formal, implicação ética e política e pela estreita relação com o público. A sua prática artística coloca o corpo como lugar de interrogação e como ferramenta crítica em relação aos sistemas sociais, culturais e económicos.
Ambos têm formação em artes visuais e performativas: Ana estudou escultura no Ar.Co e João pintura e dança no Forum Dança, tendo trabalhado com diversos coreógrafos e encenadores da cena contemporânea portuguesa. Integraram o grupo OLHO (1992-2002), dirigido por João Garcia Miguel, como atores e cocriadores.
Juntos, criaram projetos como Mistermissmissmister (2002), sexyMF (2007), World of Interiors (2010), Atlas (2011), Gatilho da Felicidade (2012) e Manual de Instruções (2016), apresentados em importantes festivais e instituições em países como França, Alemanha, Brasil, Japão, Escócia, Suíça, Áustria, Finlândia, Eslováquia e Eslovénia. A sua obra articula frequentemente práticas colaborativas e participativas, questionando estruturas de poder, identidade e comunidade.
Fundaram e dirigem a estrutura artística casaBranca, com sede em Lagos, e são os diretores artísticos do Festival Verão Azul, projeto transdisciplinar de criação e difusão contemporânea no sul de Portugal. Em 2024, lançaram a Escola Verão Azul, um programa de formação em artes performativas. Além da criação artística, dedicam-se à curadoria, pedagogia e articulação com o território, afirmando uma prática comprometida com a descentralização, diversidade e ecologia cultural.
Ecstatic Antibodies
Emmanuel Ndefo
Ecstatic Antibodies [Anticorpos Extasiados] é uma investigação em curso baseada no trabalho do fotógrafo queer nigeriano exilado Rotimi Fani-Kayode (20 de abril de 1955 – 21 de dezembro de 1989).
Trata-se de uma performance guiada pelo conceito de Resposta Sensorial Meridiana Autónoma [ASMR] que usa a respiração, o tato, o paladar e a voz para expor os discursos herdados que moldam a forma como os corpos negros são vistos, desejados e disciplinados no Ocidente.
“Proponho uma meditação orientada, recorrendo ao ato íntimo de comer, para criar um estado sensorial agudizado que permita aos participantes sentir as tensões subtis entre prazer, vergonha, fantasia e o olhar exótico. Ao associar a natureza tátil da fruta com vídeo, voz, ritmo e ambiente, Ecstatic Antibodies mostra como os estereótipos se infiltram no corpo e como a presença, a atenção e a sensação podem fazer-lhes frente.
Considero os trabalhos de estúdio de Fani-Kayode particularmente interessantes, porque exploram questões como a sexualidade africana queer, o desejo e a espiritualidade, utilizando rituais e tradições iorubás. Fascina-me especialmente a série fotográfica Nothing to Lose. Sinto-me atraído pelas composições, pela iluminação dramática e pela forma dos corpos masculinos negros a posar com frutas exuberantes, alimentos e líquidos nutritivos. Esta figura do homem negro nu envolvido numa comunhão misteriosa, sensual e ritualizada com frutas abre-me um leque alargado de questões. Sugere que as nossas ideias acerca da sexualidade e do corpo assentam em determinadas formulações históricas, culturais e literárias relacionadas com a alimentação.
Sinto-me especialmente motivado para participar em Self-Uncensored, porque o seu enfoque na censura indireta e interiorizada vai diretamente ao encontro das minhas preocupações artísticas. Grande parte do meu trabalho analisa o uso da nudez, do êxtase e do erotismo nas artes e espiritualidades ancestrais africanas e como estes foram suprimidos ou mal interpretados em diferentes contextos. Na Nigéria, ser queer é crime e o corpo – sobretudo quando associado a desejos não normativos – é visto como uma ameaça. Em contextos europeus e internacionais, surgem formas mais subtis de restrição através de estruturas institucionais que parecem protetoras, mas que, na prática, limitam a receção da arte.”
Emmanuel Ndefo
Emmanuel Ndefo (n.1991, Kano, Nigéria) é um coreógrafo multidisciplinar, artista performativo e investigador, cujo trabalho explora o corpo como ferramenta e como lugar de investigação. A sua prática envolve a metáfora ampla do “hacking”, concebendo o corpo humano como uma rede ou sistema no qual as experiências circulam como dados — vulneráveis a disrupção, corrupção e transformação. Ao explorar estas vulnerabilidades, abre espaços de rutura, devoção e novas descobertas, revelando como a performance pode ativar conversas mais amplas no contexto contemporâneo. Enraizada na dança, performance, fotografia, cinema e instalação, a prática de Ndefo percorre as interseções entre ritual e subversão nas tradições performativas africanas. Combina a sua formação formal como antropólogo da dança com o conhecimento incorporado da prática de rituais e danças tradicionais africanas, juntamente com culturas de movimento urbano como o hip hop, o krump e o house. Trabalhando nesta sobreposição de formas, cria projetos híbridos que interrogam como os corpos negociam história, tecnologia e poder. Ndefo recebeu o ACF African Culture Fund (2019) e o African No Filter Storytellers Fund (2021). Entre as suas obras de destaque contam-se “Moving Between”, “Traces of Ecstasy” e “Adamma”. A sua investigação e performances foram apresentadas internacionalmente em instituições e festivais como o Centre for Contemporary Art, Lagos (2022), o Centre National de la Danse, Paris (2017), a Tate Modern, Londres (2019), o Transformatorio Festival, Sicília (2018), a TanzNet Dresden (2021), a Villa Karo, República do Benim (2022), a Berlin Biennale (2022), a Nordic Summer University, Oslo (2022), o Kampnagel, Hamburgo (2023), o KunstWerk Köln (2023), o PACT Zollverein, Essen (2023), a Turku New Performance Biennale, Finlândia (2023), e o RAID Festival, Salerno (2023), entre outros.
DE•NEGRIR or becoming black
Isabél Zuaa
Criação e perfomance: Isabél Zuaa
Apoio à Criação: Fantástico Preto
Direção Musical: António Tavares e Miriam Simas - BOMBU MININU
Edição de vídeo e tradução: Mauro Hermínio
DE•NEGRIR or becoming black é uma performance-conferência que questiona as pressões da representatividade e os tabus invisíveis que atravessam a criação artística. Entre discurso e gesto, Isabél Zuaa — artista multidisciplinar luso-guineense-angolana, com vivências no Brasil — convoca a sua trajetória para refletir sobre o que é considerado viável e não viável na cena contemporânea.
DE•NEGRIR or becoming Black, aqui, é afirmar o direito de tornar-se negro — um gesto positivo, de investigação e afirmação, que confronta convenções estereotipadas e desafia normas que silenciam, padronizam e esvaziam a potência da diferença. Um exercício de autonomia e presença, onde arte, corpo e pensamento se tornam espaço de "reexistência" e memória viva.
Isabél Zuaa é uma artista multidisciplinar, nascida em Lisboa, com origens angolanas e guineenses. A sua prática parte de dramaturgias em que corpos como o seu têm centralidade e protagonismo, propondo narrativas em que presença, identidade e memória se entrelaçam. Através do objeto artístico como arquivo vivo, convoca biografias e referências para gerar questionamentos expansivos. Em 2019, fundou o coletivo AURORA NEGRA juntamente com Cleo Diára e Nádia Yracema. O grupo estreou-se no TNDM II com Aurora Negra (2020), seguindo-se COSMOS (2022) e Missão da Missão (2023) no Teatro do Bairro Alto. Criaram também o Festival KILOMBO, cuja primeira edição decorreu no Espaço Alkantara (2021) e a segunda no Teatro São Luiz (2023), em parceria com o Festival Alkantara.
Isabél é cofundadora da UNA - União Negra das Artes. Foi destacada na POWERLIST 2021 e 2022 da BANTUMEN como uma das 100 personalidades mais influentes da Lusofonia.
Minute of Scream For..
Jana Shostak
Minute of Scream.. começou em 2020 na sequência das eleições fraudulentas na Bielorrússia.
Em 2021, tornou-se Minute of Scream for women na Polónia durante os protestos contra a proibição do aborto. Em 2022, tornou-se Minute of Scream for Ukraine. Em 2024, tornou-se Minute of Scream for Palestine. In 2024, it became a Minute of Scream for Lisa, who was raped and killed in the centre of Warsaw. In 2026, at TBA in Lisbon, there will be a Minute of Scream for Iran and Ukraine.
Divulgado por mais de 170 meios de comunicação, tornou-se um monumento efémero à impotência. No entanto, quando realizado por um grupo de pessoas, revelou-se um momento de empoderamento e prova de que não estamos sozinhos.
É bastante interessante, passados estes cinco anos, trazer Minute of Scream For.. ao país onde o primeiro minuto de silêncio foi documentado durante a Primeira Guerra Mundial.
Jana Shostak (nascida em Hrodna, Bielorrússia, em 1993) é uma artista conceptual/tática que tem atuado como ativista desde 2020. Vive e trabalha em Varsóvia e tem um doutoramento em artes visuais. Desde 2016, utiliza deliberadamente os meios de comunicação social como ferramenta para divulgar a sua arte/ativismo.
Ganhou vários prémios por aliar arte e ativismo.
Desde 2020 que vem cocriando o memorial efémero memorial Minute of Scream for Belarus todos os dias, às 18:00 (até ao fim da revolução e por mais um dia, de diferentes maneiras), o qual foi reconhecido universalmente.
Por esta performance, o regime bielorrusso rotulou-a como extremista.
I AM MY MOTHER
(uma peça de dança de Mohammad Abbasi)
A minha mãe nunca dançou na vida, o que acho difícil de aceitar, pelo que me pergunto como poderia encorajá-la a mexer-se.
Imagino-me a entrar no corpo da minha mãe e a mexer-me por dentro dela. Eu danço e ela também dança. Passa a ser um dueto: eu e a minha mãe a mexermo-nos como um só.
O que sentiria ela se eu dançasse dentro do corpo dela?
Foi essa pergunta que deu origem à peça.
Manifesto on Autonomy
Mohammad Abbasi
Mohammad Abbasi transforma o seu Manifesto on Autonomy [Manifesto sobre Autonomia] numa performance-palestra que confronta as tensões entre liberdade artística e restrições institucionais.
Enquanto artista do Sul Global a viver no exílio no Norte Global, analisa os mecanismos de censura, estruturas de financiamento, hierarquias culturais e relações de poder que existem para lá das fronteiras globais.
Ao questionar o papel dos artistas dentro dos sistemas de controlo e os limites da expressão pessoal, Abbasi convida-nos para um espaço onde simultaneamente se reivindica e questiona a a autonomia.
Esta apresentação performativa torna-se numa ferramenta de distúrbio e reflexão, analisando a forma como podemos (re)afirmar a nossa voz e ação num mundo que procura silenciar a dissidência.
Mohammad Abbasi nasceu em Xiraz, no Irão, em 1977, e é ator, bailarino, coreógrafo, artista de vídeo e diretor de festivais. O seu trabalho explora a interseção entre performance, ativismo e pesquisa corporizada.
Estudou encenação na Universidade de Teerão, onde atuou em várias produções com o Mehr Theatre Group. Criou a sua primeira peça coreográfica, Recall Your Birthday, no Festival Fadjr, em 2003. Entre 2008 e 2010, estudou dança contemporânea no Centro Nacional de Dança Contemporânea, em Angers, França.
Ao regressar ao Irão, fundou o Invisible Centre of Contemporary, em Teerão, para apoiar a dança independente num contexto em que esta forma de arte continua a ser, em grande parte, não oficial. Em 2011, lançou o festival de dança solo Untimely apresentando obras de coreógrafos iranianos emergentes a par de produções internacionais de Bruxelas, Berlim, Amesterdão e Zurique.
Desde 2008, Abbasi também trabalha como cineasta de dança. O seu filme I Am My Mother foi exibido internacionalmente e recebeu inúmeros prémios.
Enquanto formador, ministrou mais de 150 oficinas no Irão e na Europa, em cidades como Teerão, Xiraz, Sanandaj, Hashtgerd, Marvdasht, Munique, Lovaina, Berlim, Genebra e Izmir.
O seu trabalho tem frequentemente uma carga política, abordando as restrições culturais em torno da dança no Irão e usando o ativismo artístico para questionar e desafiar os sistemas de autoridade.
Sepideh Khodarahmi é uma artista iraniana-sueca que trabalha a partir de Portugal e da Suécia. Estudou na Academia de Música e Teatro de Gotemburgo, na Universidade de Artes de Amesterdão e no Broadway Dance Center, em Nova Iorque. Desde 2016, tem explorado o drag como forma de performance e ferramenta pedagógica, abordando temas como destruição, cakesitting, hiper-género, erotismo, intimidade, queerness e poder. No seu trabalho, a sensualidade surge como um elemento recorrente e um método. Sepideh colaborou com Marina Abramović, Hooman Sharifi e Dinis Machado e atuou em palcos de renome, como o Teatro Dramático Real em Estocolmo e o Teatro Nacional D. Maria II em Lisboa. Também participou no Programa Avançado de Criação em Artes Performativas (PACAP) com Meg Stuart no Forum Dança em Lisboa.
